Gerou-se uma revolta no povo humilde do
Cariri sul-cearense. Zunia-se na Região haver onda de roubo e corrupção. Júlio Melo,
proprietário de sítio no povoado São José em Juazeiro do Norte, discordava
dessa desordem e culpava os de oposição ao novo governo do Ceará.
Entretanto Júlio Melo não esperava
acontecer com ele aquilo que muitos lhe advertiam. Num domingo de fria
manhã surgindo, ele acordou-se atordoado, deitado na grama da praça
do Cristo Redentor no Crato, e se deparou com a sua quebra de três meses
de afastamento do álcool. Avistou na praça o ônibus da linha Crato-Juazeiro do
Norte, e pombos a andarem e a voarem baixo. A estação de trem fechada,
abandonada. Quis saber a hora. Botou a mão no bolso direito da calça, e nada do
relógio de pulso. De tão fraco, não conseguia se sentar no banco da praça. A
cabeça doía, cheiro azedo de vômito subia da camisa e entrava pelo nariz.
Acendeu nele a lembrança de casa. A esposa Naninha, na demora dele, deveria
estar de cabeça cheia de coisas ruins.
Em pé, Júlio Melo achou no bolso da
camisa o pacotinho de cigarro fumo de rolo e a caixa de fósforos. Acendeu-o,
baforou-o por três vezes, apregando-o no canto da boca. De repente, entrou na
real: - Mas cadê minha bicicleta? E a minha feira?
Tragou fundo a fumaça, a fim de tomar
pé da situação. Mas lhe bateu o desespero e disparou sua voz, que espantou
pombos: - Eita peste, mãe das Dores, cadê o bacorinho?
Saiu desorientado à busca dos
pertences. Procurou, procurou, até encontrá-los: a bicicleta, deitada por
detrás do banco, na grama. O saco das compras ao lado dela. E o bacorinho amarrado
nas duas pernas traseiras, a dormir debaixo do banco.
Passado o susto, ocupou-se no retorno ligeiro para casa, no limite do Crato com Juazeiro do Norte. Amarrou de corda no bagageiro da bicicleta o saco da feira. No quadro dela, pendurou o bacorinho, a grunhir. E sem se incomodar com o alarido do bicho, arregaçou as pernas da calça até os joelhos, trepando-se na bicicleta. Antes da partida, traçou o sinal da cruz. Por fim, partiu em direção da saída do Crato, com a gritaiada do animal, de cabeça para baixo.
Passado o susto, ocupou-se no retorno ligeiro para casa, no limite do Crato com Juazeiro do Norte. Amarrou de corda no bagageiro da bicicleta o saco da feira. No quadro dela, pendurou o bacorinho, a grunhir. E sem se incomodar com o alarido do bicho, arregaçou as pernas da calça até os joelhos, trepando-se na bicicleta. Antes da partida, traçou o sinal da cruz. Por fim, partiu em direção da saída do Crato, com a gritaiada do animal, de cabeça para baixo.
Nas pedaladas da bicicleta, abandonou o
Luís-gonzaga assobiado, a fim de traçar plano ao chegar à casa. Iria ajeitar a
cerca de varas para afastar os bodes da vizinha, a velha Sinhá Maria. Eles
deixavam esteira de merda no quintal para sua mulher Naninha limpar. Naninha
era besta, até o genro mandava nela.
Passou a empurrar Júlio Melo a
bicicleta para o alto da ladeira. Esforçava-se, devido à ressaca. O danado do bacorinho
se esganava. Contudo ele alcançou o topo da ladeira. Parou para descansar. Até
contemplou a Chapada do Araripe verde-azulada a se juntar ao céu ensolarado e
sem nuvens.
Mais calmo, ajeitou-se na bicicleta, traçou
de novo o sinal da cruz e deslizou ladeira abaixo. O vento entrava pela camisa,
o chapéu de palha parecia querer voar. No final da descida da ladeira, não
havia daquela vez barreira da polícia. Para Júlio Melo, ter ou não barreira era
o de menos. Os guardas de Fortaleza o respeitavam.
Pouco distante, avistou Júlio Melo,
debaixo da mangueira, a camioneta do Estado. Adiante dela, via-se a placa
verde, de letras brancas, que ele sabia de cor: REDUZA A VELOCIDADE.
Aquilo não era para ele, pensou. Soltou no restinho da ladeira a gaiatice: - Avia,
Júlio Melo, sem tá melado.
No instante o guarda barrigudo, de
óculos escuros, cismou de lhe atravessar o braço comprido na pista, feito pau
de cancela. Apitava como cigarra ou zunido de ouvido. Resolveu obedecer à
autoridade. Mesmo se agarrando aos freios da bicicleta com cuidado, perdeu o
rumo da pista, estendendo-se no asfalto gasto. O bacorinho rasgou grunhido para
o mundo.
Ajeitando o quepe, o guarda do bração se
aproximou de Júlio Melo. Quase não andava, devido à barriga a estourar os
botões da camisa da farda. E logo espionou o destino dele. Não o deixou
nem se levantar direito do chão, para colocar a bicicleta no pedal de
equilíbrio. Já o magro, cara de caneiro, também se encostou a fustigar de onde
vinha. De modo educado, Júlio Melo lhe afirmou: - Eu venho da feira
do Crato. Sou dali do São José.
- E esse porco, cidadão? - cortou-lhe a
conversa o cara de caneiro, ajeitando o revólver na cintura: - Comprou na
feira? Júlio Melo aprovou com a cabeça e a voz. Procurou lhes estirar conversa:
- Voltava da feira do Crato. Vinha apressado. Mulher e filhos esperavam por ele
em casa. Mas o barrigudo lhe cortou a fala: - Quero ver a nota.
- Que nota, seu guarda.
- A nota fiscal, que prova que o porco
é seu.
- Mas ele é meu de vera, seu guarda.
- Ah, é?... Sem nota, pode ir, mas sem o
porco.
Arregalou os olhos Simão. Sentiu a enrolada
do barrigudo, acoloiado com o rabo de cana. Refletiu ter razão, e não abriria
dos peitos. Cheio de coragem, passou a explicar às autoridades ser homem
direito, honesto, derramador de suor na sua propriedade no São José. Comprara o
bacorinho com o suado dele mais da mulher.
- Chega, cidadão - alteou a voz o
barrigudo. - Sem nota, o porco fica no posto.
Diante daquela arrogância, Júlio Simão
esmoreceu. Pelo cérebro se buliu jogar na cara dos policiais o que o povo
remoía deles.
- Sem nota, gritou mais alto o caneiro,
você tem de deixar o porco.
Decidiu Júlio Simão entregar o
animalzinho. Engoliu pena do porquinho a se espernear, com olhinhos de bila
preta a luzir para ele. Sob o olhar das duas autoridades, devagar desamarrava o
bacorinho. Enquanto tirava as cordas, lembrou-se do bom tempo em que não se via
falar de rapinagem dos guardas para com os caririenses. Mas com o tempo mudado,
afrouxaram as rédeas do governo da capital cearense. Num rompante, avisou aos
dois policiais a sua decisão:
- Pronto, taí ele - e soltou o
bacorinho.
Ao se sentir em liberdade, o animal
rodopiou nas patas e disparou pelo asfalto. A camioneta, ao vir em alta
velocidade, quase atropelou o barrigudo. Já o caneiro saiu a rolar pela pista
do escorrego para agarrar o bacorinho. Alucinados, os dois policiais se
esqueceram do posto e de Júlio Melo, que fugiu emborcado em sua bicicleta, na
carreira das que só, por entre pedaços de nuvem e de urubus a salpicar de preto
o céu azul do Cariri.
JN. Dantas de Sousa
