Quantas notícias desagradáveis sobre Nélson Júnior, um amigo de
infância, já me contaram. A última ao me encontrar com Agenor Arrais, na porta
da agência do Banco do Brasil, no centro de Juazeiro do Norte. Após Agenor
findar o ocorrido, adiantei-lhe que, dois meses atrás, ele me viera com uma conversa
mole.
- Já sei. Ele deve ter armado a arapuca, Tenório. E
você caiu.
Antes de entrar no banco, relatei para Agenor o encontro com
Nélson Júnior. Ele primeiro me relembrou um fato ocorrido na escolinha de dona
Aurora. Defendeu-me da valentia de um colega nosso, em horário de recreio. Em
seguida, desviou-me para sua vida familiar. Explicou-me que os filhos
precisavam de tudo, e sua esposa esbanjava riqueza. Havia se tornado espírita,
depois de se desenganar da Igreja católica. Lastimou-se de viver pior do que
eu. E acabou me pedindo para eu ser seu fiador.
- E você foi, Tenório? Caiu como eu. Aquele velhaco, até
quis lhe dar uma lição.
Esperei Agenor se acalmar. Sua fala chamou à atenção de quem
estava no banco. Sem se importar com as pessoas, declarou-me que ainda pagava
vinte e duas prestações de um televisor que Nélson comprara e só pagou duas
prestações
- Caí num poço de lama. Hoje, estou pagando
meu erro.
Para acalmar Agenor, usei-me de palavras consoladoras. Mas a prudência me puxou as rédeas para eu refletir melhor o que lhe deveria falar. Acabei a lhe aconselhar: - Quem mandou você não ler a Bíblia.
- E o que tem Bíblia com fiador, Tenório? Não
brinque com coisa séria.
Paciente, antes de atravessar a porta giratória do banco,
retirei a cadernetinha do bolso da camisa. Escrevi, na folha
branca: Provérbios 11,15. Entreguei-lhe a folha.
- Virou evangélico, Tenório? Isso não paga as prestações não.
Tive de sorrir. Imaginei que Agenor não abria a Bíblia. Escrevi parte do versículo em outra folhinha: Quem fica por fiador de um estranho cairá na desventura. E lhe entreguei. Agenor colocou no bolso da camisa os dois papéis. Mas antes de se afastar, ele me assegurou: - Vou tomar seu remédio, Tenório. Quem sabe melhora meu juízo.
JN. Dantas de Sousa
