Descia pela rua São Pedro a Escola Normal
de Juazeiro do Norte, destinada à formação de professoras. A multidão, separada
por cordas, assistia barulhenta ao desfile do Sete de Setembro. Destacava-se à
frente da Escola a porta-bandeira do Brasil, Regina Estrela de Oliveira. De
olhos castanhos, cabelo preto e liso até a cintura, a aluna portava delicado
sorriso. Na época, consideravam-na moça elegante da cidade. Seu plano consistia
em ser professora da Escola Normal. Não havia penetrado na sua mente se casar.
Na esquina da rua São Pedro com São
Francisco, Regina aguardava a escola da frente finalizar seu desfile ante
as autoridades no palanque da rua São Pedro. Durante o breve intervalo, a
estudante ao voltar o rosto para a esquina da direita, a da agência do Banco do
Brasil, surpreendeu-se com aqueles olhos verdes a fitá-la com firmeza. Agarrado
à corda, o rapaz parecia querer lhe dizer algo. Sem ela esperar, ele lhe mandou
o beijo.
O atrevido lhe fez tremer o corpo.
Regina Estrela, antes de recomeçar a marcha, revidou-lhe com disfarce de canto
de olho o sutil beijo. Assim, após o desfile da Escola, por sinal bem
aplaudida, ocorreu o primeiro encontro dos dois jovens.
O rapaz seguiu-a pela calçada, a forçar
passagem entre o público. Ao final do desfile, na rua Floro Bartolomeu,
reencontraram-se. Rumaram os dois, acompanhados pela prima da moça até a praça
Padre Cícero. Na aproximação dos dois, o destino imprevisível e sutil uniu a
juazeirense ao alagoano José Lira de Melo.
***
***
Embora sob efeito de tranquilizante,
Dona Regina insone percorria passado. Casara-se com José Lira de Melo. Passaram
a lhe chamar professora Regina, devido à sua escola de alfabetização, ao
lado do comércio do marido. E ao se lembrar do comércio do marido, voltou-se
para a sua imensa angústia.
Depois que voltara à tarde do enterro
do marido no cemitério do Socorro, desabou-se na cadeira de balanço da sala de
jantar, sem querer conversa com ninguém. Recusara companhia de parentes, amigas
antigas, vizinhas. Preferiu pensar como continuar sua vida dali em diante. Não
possuía filho nem quis adotar. Não mais se ocuparia em dar as aulas de reforço.
Desde o casamento, não se separava de Quininha, amável empregada. Devido ao
nervosismo da empregada, mandou-a passar dias na casa da única filha, no
município de Santana do Cariri.
Seu Zuca e Dona Regina durante quarenta
e quatro anos de casados permaneceram em paz. O único desgosto da esposa se
realçava pelo marido se ocupar mais do mercadinho e de seus fregueses. Raramente
ele a acompanhava à igreja para assistirem à missa do domingo. Mas Seu Zuca
conservava duas obrigações religiosas. A primeira, a Renovação do Sagrado
Coração de Jesus em sua residência, no dia quinze de agosto. Dona Baião, a
rezadeira, tirava a Renovação. Já a segunda obrigação ocorria todos os
dias. Após fechar o comércio às dez da noite, Seu Zuca rezava o terço com a
esposa.
Levantou-se da cadeira Dona Regina a
fim de passar o café. Avistou pela brecha da janela o dia a amanhecer. Enquanto
coava o café, veio-lhe à mente a imagem de Tião. E lhe invadiu a
imaginação. Viu-o com os mesmos olhos verdes do marido. Lembrou-se de
quando José mandava Quininha não se esquecer do almoço, janta e merenda do
mendigo. Tião se apegara ao mercadinho do marido. Seu Zuca e Dona Regina o
sustentavam. Até roupas usadas lhe davam. Tião só não fazia morar na
casa.
Todos os dias da semana, o mendigo
chegava cedo ao mercadinho para receber o café da manhã e prosear com o marido.
Andava com o inseparável saco às costas. Tião se sustentava de esmolas. Seu
Zuca lhe deu um quarto com luz e água na sua vila de casas, ao lado da igreja
de São Francisco, a seis quarteirões dos seus caridosos amigos.
Desde que Tião se achegou ao
comerciante, vindo de não sabe de onde, acendeu-se em Dona Regina aversão a
ele. Por mais que o marido lhe pedisse para ser benevolente com o mendigo, ela
guardava dentro de si o pensamento esquisito, como se Tião lhe mostrasse uma herança
de tristeza.
Levantou-se da mesa da sala de jantar
Dona Regina sem ânimo. Entrou no quarto e deitou-se na cama de casal. Novamente
lhe retornou a trágica noite da quarta-feira, em meio à Hora da Graça (missa e bênção
do Santíssimo Sacramento). Ao sair da igreja dos franciscanos, Dona
Regina se atentou para o trágico ocorrido: dois homens foram assassinados. Ao
chegar à rua da sua residência, avistou Quininha aos gritos, nervosa, sem
ninguém a acalmar.
Levantou-se da cama apressada Dona
Regina. Correu para a bodega. Empurrou a porta e passou a rememorar a cena:
entre o balcão e as duas portas de ferro abertas, o marido no chão do
mercadinho como se estivesse dormindo por cima de Tião, também ensanguentado,
sem se mexer. Lembrou-se de ter recebido do policial a bolsa de documentos do marido
e o saco de pano de Tião. Segundo o policial lhe aconselhara, o saco
serviria para esclarecer algo sobre o mendigo.
Dona Regina se arrepiou ao segurar o
saco de pano. Parecia-lhe Tião a querer de volta o imundo saco. Para espantar o
mal, ela se benzeu com o sinal da cruz. Mas no instante de tamanha aflição e
medo, sozinha dentro do comércio do marido, Tião lhe desejava revelar uma
notícia, ou fazer as pazes com ela.
Correu até a sala de jantar Dona
Regina. Sentia o desespero a lhe querer asfixiá-la. Por providência de Deus,
batiam-lhe à porta do salão. Era a voz de Quininha a retornar. Abraçou-a como
se fosse a pessoa mais querida do mundo. Começou a lhe contar o que ela presenciara
sozinha dentro do mercadinho, instantes atrás.
- Dona Regina, alertou-lhe a empregada,
não jogue fora o saco de Tião.
Dona Regina mudou a conversa. Pediu a
Quininha cozinhar algo para comerem. Sentia-se fraca, devido a tranquilizantes
e café. E enquanto a empregada se dirigiu à cozinha, veio-lhe à
mente abrir o saco de Tião. Lembrou-se de haver deixado debaixo do balcão
da bodega. Pegou-o e trouxe para o claro.
Quininha abrira a janela da sala de
jantar. Ali, Dona Regina abriu o saco e se deparou com o caderno grosso.
Arrepiou-se. Mais ainda quando Quininha lhe informou: - Pegaram o nojento que
tirou a vida do Seu Zuca e do Tião. Soube na rua quando vinha pra
cá.
Quininha voltou aos afazeres da casa.
Atônita e amargurada, sentou-se Dona Regina na cadeira de balanço. Tremia-se,
agarrada ao caderno engelhado de Tião. Abriu-o. Começou a passar os olhos pelas
páginas amareladas. A letra legível de quem frequentara escola. Apressada, ela
o lia. Descobriu nele a coincidência: Tião e seu marido eram dois alagoanos.
Antes de prosseguir a leitura, Dona
Regina buscou mais algo no saco. Encontrou a identidade de Tião e leu o nome
completo dele, do seu pai e da sua mãe. Então decidiu observar a identidade do
marido. Finalmente, comprovou: dois alagoanos, irmãos de pai e mãe. No
instante, aflorou-lhe o pensamento de que ninguém deste mundo, nem tampouco
Quininha, iria saber nada sobre Tião, ou Sebastião Lira de Melo. Dona Regina queimou no quintal de casa o saco e o que havia dentro
dele.
JN. Dantas de Sousa
