Nem com papa, nem com papo (Dantas de Sousa) - crônica

O dono de construtora, contratada pela Prefeitura de..., resolveu visitar uma das duas escolas que estavam sendo reformadas para serem reinaugurada no dia do Município. E logo pela manhã, na camioneta da Prefeitura, acompanhado por dois funcionários de sua empresa, eles entraram na escola. O dono da construtora era primo e quase irmão do prefeito. A sua construtora comandava todas as obras da nova gestão Administrando com o povo. 

Mal o empresário iniciou a supervisão da obra, só pela cara dos trabalhadores já se percebia que o doutor não era bem recebido por eles. Nenhum sequer lhe abriu sorriso. Diante da indiferença para com ele, o doutor se reuniu reservadamente com o seu encarregado da construção e os dois funcionários da empresa, dentro da improvisada saleta, com ventilador, água mineral, cafezinho e porta de vidro. Ao final da reunião de quase uma hora, convocaram os trabalhadores, a fim de ter com eles uma conversa cordial e amigável. 

Assim, ao ver os trabalhadores reunidos no pátio em silêncio, o empresário iniciou seu discurso de otimismo. Entretanto, logo foi interrompido pelo Piauí, servente novato na empresa. Era ele negro baixo e gordo, falante e brincalhão com os colegas. Dizia ele ter andador por todo o Brasil e nascido em Codó no Maranhão, além de ser neto de angolanos.

- Doutor, qual a sua graça? - perguntou Codó, sem se importar com olhares receosos e acanhados dos colegas.

- Doutor Morais, antecipou-se o encarregado.   

- Certo, afirmou sério Codó, sem sair do seu local, por trás dos outros. - Mas eu só quero dizer pro doutor Morais que já faz uma semana e já se passou duas e se vão pras três. Aqui, no zererê. Não se vê nem fiapo de dinheiro no nosso bolso.

- Calma, vamos com calma, meu rapaz e todos daqui, adiantou-se doutor Morais, estendendo a mão direita em direção aos trabalhadores em pé e calados. -Vou ajeitar isso hoje mesmo. Agora eu estou aqui pra dizer pra vocês que vamos começar a trabalhar o sábado à tarde e o domingo, para que a obra ande mais rápido, uma vez que o prazo está correndo para a obra sair no dia do Município. Ouçam com atenção, vou pagar a vocês o que vocês vão trabalhar um pouco mais.

- Bom doutor... - levantou a voz Codó, postando-se adiante dos colegas. - O bom doutor não paga nós nem o da semana quanto mais vai pagar os dias da folga da gente.

- Codó, doutor Morais, cortou a conversa o encarregado da obra, ele é novato e tem uma língua maior do que muita gente grande.

Ao se ver humilhado pelo encarregado, Codó não se deu por calado: - Pois minha língua, seu baba-ovo, é do tamanho que Deus me consentiu. Mas ela nunca foi queimada com papa quente quando eu era pequeno, avalie agora, depois de eu grande. Comigo é nem com papa, nem com papo.

Naquele instante, os trabalhadores bateram palmas com veemência e passaram a elogiar a sabedoria e o destemor do Codó. Logo, o converseiro entre os trabalhadores aumentou tanto que se embocou em protesto. Precisou doutor Morais, seus dois funcionários visitantes e o encarregado da obra se isolarem dos trabalhadores, todos dentro da improvisada saleta, com ventilador, água mineral, cafezinho e porta de vidro. Então decidiram irem com urgência para uma conversa com o primo de doutor Morais.

        JN. Dantas de Sousa

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