Depois da transferência do pai com
a família para Fortaleza, o lar de Lúcia se inundou de tribulação. Bem diferente
de quando eles residiam no Juazeiro do Norte. Neste município, a família alçava-se
de paz familiar.
Na capital, o pai de Lúcia penetrou no
álcool. De início, às sextas-feiras, após o expediente da repartição federal,
ele se divertia com colegas. Pouco depois, saía às quartas-feiras. Noutros dias
da semana, o pai bebia a sós no apartamento. Ele virara ébrio.
De tanto reclamar e brigar com ele, a mãe
de Lúcia perdeu força. Não saía a lugares. Trancou-se no quarto só dela. Ao
sair do quarto, criava bate-boca com Lúcia e Jacinta. Para ela, havia se sumido
os vinte e cinco anos de casamento.
Certo dia, uma senhora, esposa de
colega da repartição do pai, a qual também sofria a embriaguez do marido,
convenceu à mãe de Lúcia recorrer a um terreiro. Sua mãe acompanhou-a, e
demorou quatro meses de idas. Abandonou o terreiro sem conseguir resolver seu
problema nem o do seu lar. Terminou a se valer do psiquiatra.
A partir daí, a mãe se distanciava da
família: isolou-se no quarto onde dormia sozinha, sem coragem de se comunicar
com gente. Até a irmã mais velha Jacinta, que tentava concluir o curso de
Psicologia, achava-se desorientada.
Lúcia quase não parava em casa. Repetira
a primeira série do Ensino Médio e já se encaminhava para ser reprovada na
segunda série. Andava com turminha da pesada. E não escutava as advertências de
Jacinta.
Numa manhã de sexta-feira de outubro,
quando Lúcia se preparava a ir à escola, Jacinta, desconfiada da irmã não
conduzir seu material escolar, porém a sacola de viagem, insistiu aconselhá-la
enquanto as duas se sentavam à mesa da cozinha, na primeira refeição do dia.
Revoltada, Lúcia se levantou da mesa, jogando
para irmã a revolta: nada de conselho. E na cegueira para se encontrar com
colegas, caminhou para a porta da saída. Mas Jacinta insistiu: - Pelo menos,
vamos conversar como duas pessoas adultas.
- Adultas? - lançou-lhe Lúcia na cara.
- Nem eu nem você ajeita esse inferno.
Quando Lúcia abriu a porta do
apartamento e se despedia, Jacinta se usou da humildade: somente as duas irmãs
preparariam o caminho para resolverem a situação triste, sem jeito. No impulso
da coragem, Jacinta convidou a irmã a se sentar junto dela, no sofá da
sala de visitas.
Enfim, sentaram-se. Até se abraçaram, gesto
raro entre as duas. Continuaram em silêncio. Jacinta, de olhos fechados. Lúcia
de olhos abertos, agoniada para ir ao encontro planejado com a turma.
Ao observar a irmã na mesma posição, sem
reação, impacientou-se Lúcia. Agarrada ao braço de Jacinta, indagou-lhe se
desejava lamentar algo. Ao abrir os olhos devagar, Jacinta avisou a ela: - Sinto
forte dor no coração.
Na sala silenciosa, Lúcia observou a
irmã apertar o próprio coração. Agoniada e pálida, Jacinta atormentada da dor, dificultava-se
em falar algo.
Diante da situação vexatória, Lúcia
aumentou a agoniação ao anunciar, aos gritos para a irmã, haver presenciado
algo bastante estranho. Ao mesmo tempo, apontava com o indicador da mão
direita, para o quadro de Jesus, afixado no centro da sala de visitas.
O quadro ali exposto para a família
pouco significava a sua existência e a sua convivência e raro a sua intimidade.
Aliás, as duas irmãs sabiam sobre o quadro isto: o pai pregara na parede
da sala de visitas da casa de Juazeiro. Diziam-lhes ser presente dos avós
paternos. Nome do quadro: Sagrado Coração de Jesus. A avó antes de morrer avisou
ao filho não o desprezar. E o pai de Lúcia afixou o quadro na sala de visitas
do apartamento em Fortaleza. Daí o quadro habitava sozinho na parede da sala,
em silêncio e solitário.
Todavia o fenômeno daquele dia
inesquecível, reluzente de mistério, transcendeu em Lúcia naquele instante
incomum a realidade espiritual da imagem e da mensagem de Jesus: Porei paz em
sua família.
***
- O Jesus do quadro, em Fortaleza, prometeu
mesmo pra você, Lúcia?
- Sim, Carla. O Sagrado Coração de Jesus
me falou.
É bom situar o caro leitor no conteúdo
da história: as duas amigas Lúcia e Carla Amaral conversavam na varanda do
apartamento de Lúcia, em Juazeiro do Norte. Fazia dois meses da mudança de
Lúcia de Fortaleza para Juazeiro do Norte, já que estava viúva e aposentada. Ela
comprou o apartamento e trouxe Socorro, sua funcionária, que preferiu morar no
Cariri. Lúcia deixou dois filhos e quatro netos em Fortaleza. Além da irmã
Jacinta e o marido, com seus dois filhos casados.
No seu aniversário de setenta e oito
anos, após saírem os convidados, Lúcia relatou para a amiga Carla a história do
quadro de sua família em Fortaleza, afixado na sala de visitas da nova
residência em Juazeiro do Norte.
Para Lúcia, se a amiga Carla Amaral creu
ou não creu na sua história, isso não lhe causa perturbação, pois Jesus confirmou
sua promessa.
Por essa razão, ocorreu em dia de sexta-feira a Entronização do Coração de Jesus, solene ato católico, no novo apartamento de Lúcia. No mesmo dia, a Igreja Católica Apostólica Romana celebrava a Solenidade do Coração de Jesus. O coração de Lúcia se regozijava, já que a imagem do quadro sagrado de sua família continuaria a reinar no seu pedacinho de céu, no dizer do servo de Deus padre Cicero Romão.
Diante da Imagem do Coração de Jesus, Lúcia concluiu seu depoimento à amiga: assistiu ela ao falecimento dos seus pais em paz e união familiar. Em Fortaleza enterrados, cada qual com honras de casal bodas de ouro.
JN. Dantas de Sousa
