Tarde fria pairava. Saí do apartamento no bairro da Aclimação
em São Paulo e entrei no carro para ir ao Horto Florestal. No início de oitenta,
não havia perigo nenhum.
No silêncio do Horto, sentei-me na grama para dar
continuidade à leitura do livro A insustentável leveza do ser, de Milan
Kundera.
Entretanto resolvi parar a leitura. Dois trabalhadores
daquele local conversavam entre si. Prestei atenção a eles. Um reclamava do
trabalho, no domingo dia de descanso em casa. O outro também reclamou que
preferia estar no estádio assistindo ao jogo de futebol e tomando uma
cervejinha.
Despertou em mim a refletir: enquanto eu me sentia satisfeito,
ou de modo feliz naquele momento, naquele local agradável, aqueles dois
senhores sentiam-se insatisfeitos, infelizes, no mesmo espaço em que eu me
encontrava.
Por que é que muitos indivíduos sofrem tormentos no ato de
trabalhar? Assim como outros sofrem tormentos do ato de não trabalhar. Quantos
indivíduos me ironizaram quando eu lhes afirmei que trabalho é diversão. E não obrigação.
Claro, eu sempre deverei ser sujeito do trabalho.
JN. Dantas de Sousa
