Na esquina da rua Santa Luzia com São
Pedro, após seu retorno há duas semanas com a esposa e dois filhos para morar
em Juazeiro do Norte, onde nascera, Aristides Branco de Leite deparou-se com
Miguel de barba nos peitos, na agonia da loucura, no meio da rua. Corria de
calçada a outra em meio ao movimento de pessoas e carros. Ora traçava cruz para
o povo, ora apitava com os dedos polegar e indicador, em círculo dentro da
boca, e rebolava os braços a organizar o trânsito. Corria e pulava e se benzia
e benzia o povo e sorria e apitava. Motoristas lhe obedeciam. Curiosos parados
riam dele, ou pediam ao maluco Miguel sair do perigo. De súbito, Miguel
abandonou o meio da rua e postou-se diante de Aristides em pé na calçada. De
mão direita estendida, implorou-lhe apressado: - Me dê um trocado. Me dê, me
dê.
Antes de lhe entregar a esmola, o
odontólogo Aristides revelou-lhe conhecê-lo há anos. Até lhe provou ter sido
ele um freelancer para comerciantes de casa comercial na rua São Pedro. Miguel,
no entanto, cortou-lhe a conversa: - Me dê logo. Me dê.
De modo instintivo, a olhar firme para
dentro de seus olhos pretos e assustados, Aristides exigiu a Miguel que lhe
ofertasse sabedoria sua, criada na hora. Para surpresa do odontólogo, Miguel
espargiu o perfume filosófico dos loucos:
- Antigamente, eu me preocupava com o
mundo. Agora, o mundo é quem se preocupa comigo. - De mão estendida, suplicou a
esmola: - Me dê. Já não dei meu saber?
Ao lhe entregar vinte reais, Manuel se
esqueceu do meio da rua, a imitar guarda de trânsito. Disparou como fogo de
artifício em meio ao povo da rua Santa Luzia e desapareceu. Enquanto andava a
refletir sobre a frase de Miguel, Aristides prometeu a si mesmo extrair mais
sabedoria do filósofo louco.
***
***
Por quatro vezes após aquele encontro
na esquina da rua Santa Luzia com São Pedro, Aristides avistou Miguel no centro
comercial da cidade a teatralizar o personagem organizador de trânsito. Mas o
momento não lhe agradou de se aproximar dele. Parecia Manuel fugir de Aristides.
Entretanto no passar do tempo Aristides
Branco de Leite se pacientou na expectativa do encontro com Miguel. Pressentia-se
nele que o reencontro conduziria ao
silogismo, como este: a Humanidade enlouquece. Manuel é um ser humano. Logo,
Manuel enlouquece.
Pois não é que sem Aristides esperar
se deparou com Miguel. Ele assistia à missa dominical na Matriz
de São José, no bairro Limoeiro. Na ocasião, achava-se de cabelo bem penteado
para trás, com a barba até os peitos, de camisa branca de manga comprida. Ao
lado dele, via-se a senhora baixinha, branca, sardenta, de pó excessivo no
rosto e de aliança de ouro no dedo da mão esquerda.
Até o final da missa, Miguel permaneceu
calado. Após a missa, deixou-se conduzir pela mulher agarrada ao braço dele.
Não deu por terminada a aventura: Aristides correu ao encontro dos dois.
Conseguiu parar Miguel e a mulher diante da casa das freiras.
Depois de conquistar a confiança dos
dois, Aristides relembrou a Miguel o seu axioma na esquina da rua Santa Luzia com
rua São Pedro.
Por instantes, Miguel se conservou de
cabeça baixa, calado, e a esposa sem lhe soltar o braço. No rompante, ao encarar
Aristides, ele estrondou a voz: - Naquele tempo, eu não
estava louco. Pois agora o mundo pensa que estou. Mas este seu
amigo hoje é um pensador pro povo do mundo se consertar.
Por causa disso, Miguel ganhou da
esposa o beliscão no braço. Ela ainda advertiu Aristides de que o marido não
era louco, mas só tomava comprimidos para retirar da cabeça o desejo de ele
confessar ser um iluminado de Deus para corrigir o mal do mundo. Ao que Miguel
prontamente se objetou: - Onde se viu isso, meu amigo, essa mulher ter tirado
essa história? Quem sou eu pra corrigir esse mundão de meu Deus? Agora vou
dizer sério: quem pensar que o louco não trabalha, não quer trabalhar, se engana.
Louco, meu amigo, de tanto ser tido como louco, trabalha demais, pois é quem
remove da face da terra toda sujeira grudada desde o começo do mundo.
Miguel ainda quis continuar sua
filosofia, porém a mulher de cara zangada o arrastou pelo braço rua abaixo e de
voz alterada: - Chega, Miguel. Se eu solto seu cabresto, você se desembesta
e se espicha pro povo. E lá se foram os dois. Miguel em silêncio, sua mulher a
zoadar com ele.
Por fim, o odontólogo Aristides
encontrou seu perfume da loucura pela última vez na Avenida Castelo Branco. Em
meio ao ajuntamento de pessoas, Aristides precisou de estacionar o carro. Ao
penetrar na multidão, se conteve: Miguel deitado de bruços na pista da Avenida,
com sangue espalhado pelo rosto, cabelo, camisa branca de manga comprida, calça
branca. A notícia de um popular impressionou Aristides: - O caminhão caçamba
triturou Miguel. Depois de engolir ele, abandonou seu corpo.
JN. Dantas de Sousa
