Era um homem que trabalhava na olaria e tinha
um cavalo, um touro e um porco. Ele judiava do cavalo o dia inteirinho, ora trabalhando
na pipa, ora amassando o barro, com a coleira no pescoço. À tardezinha, ele soltou
o cavalo. E o cavalo, muito cansado, foi reclamar para o touro:
- Hoje eu estou quebrado. O meu dono me judiou
demais. Eu amassei barro que não foi brincadeira.
O touro respondeu ao cavalo:
- Você, cavalo, é um bobo. Se eu fosse você, amanhã
cedo, na hora em que ele fosse buscar você para amassar o barro, eu cairia no
chão e fingia que estava doente. Aí eu quero ver quem ele leva para trabalhar.
- Dias atrás, disse o cavalo, ele resolveu tombar
terra comigo, e eu fiz o que você me aconselhou agora.
- Mas, amigo cavalo, faça o que eu estou lhe
falando agora, que vai dar certo.
No dia seguinte, às três da manhã, o dono da
olaria foi pegar o cavalo, de candeeiro na mão. Chegou à moita de arranha-gato
e alumiou. Logo se deparou com o rastro do animal, e o avistou dentro da moita.
Com bastante raiva, xingou o cavalo e bateu um bocado nele. Mas como o cavalo
não conseguia se levantar, o dono da olaria
saiu atrás do touro para ele ir amassar o barro. E o coitado amassou
o dobro de barro que o cavalo tinha amassado no dia anterior.
Quando foi à tarde, ele soltou o touro no
pasto. De tão cansado o coitado estava com os chifres no nariz. Ao encontrar o cavalo,
ele se lamuriou:
- Eu andei, andei, andei. Lá no córrego, fiquei
amassando barro e fiquei tonto com a canga no pescoço. Enquanto isso, você
descansou o dia inteirinho na moita e todo folgado. Vamos fazer o seguinte: amanhã
cedo, na hora em que ele vier pegar um de nós dois, a gente se deita e não vamos
levantar de jeito nenhum.
No outro dia, o dono foi para o pasto e
encontrou os dois lá deitados. Cutucou um, mas não se levantou. Foi com a vara
de ferrão no touro, ferroou, ferroou, xingou, bateu nele, mas ele não se levantou.
Ao ver que o touro não se levantava, terminou indo embora.
Aí o touro se levantou e falou para o cavalo:
- Amigo cavalo, que negócio é esse? Nosso
dono só fica judiando de nós, Faz nós de escravo, judia, bate em nós. E o tal do
fulano porco? Fica lá no chiqueiro só comendo. Toma seus três banhos três vezes
por dia. Come do bom e do melhor, e nós nem banho tomamos, a não ser quando
chove, e olhe lá. Além disso, temos de puxar a canga no pescoço.
O cavalo então lhe falou:
- É mesmo. Eu vou lá reclamar para o porco que
nosso dono não pode fazer isso com nós dois. No mesmo instante, o cavalo foi choramingar
ao porco lá no chiqueiro:
- Meu amigo, eu mais meu amigo touro estávamos
conversando hoje...
- O porco logo cortou-lhe a conversa:
- Eu
escutei, bem, escutei. Vocês dois metem a boca em mim lá, falando mal de mim.
- De jeito nenhum, amigo porco. A gente só fala
o que é certo. Você fica neste chiqueiro, come, toma seu banho três vez por dia,
enquanto isso nós trabalhamos feito tonto, na olaria como um bobo.
Aí o porco resmungou irritado:
- Ah, amigo cavalo, vocês dois são bobos.
Sabe o que devem fazer? Hoje é que está bom. E o tempo está só de bom! Vai chover
muito. Amanhã cedo, na hora em que o dono vier pegar vocês, deitem e não se levantem
não. Vocês já fizeram isso? Deitem e finjam de doente. Vocês dois são uns bobos,
e não sabem viver.
Quando foi no outro dia cedo, o dono se levantou,
e ainda estava chovendo. Mas ele resolveu consigo ir buscar lenha para secá-la
e, depois, queimar os tijolos.
Dirigiu-se ao pasto. O cavalo estava correndo lá todo alegre. pelo pasto. No
entanto, ao ver o dono com o cabresto na mão, deitou-se depressa e falou para o
touro:
- Meu amigo touro, se deite no chão que lá
vem o homem.
Imediatamente, o touro se jogou ao chão. Caiu
pranchado no chão.
Então o dono foi primeiro no cavalo,
reclamando-lhe:
- Se levante alazão, se levante. - e nada do
cavalo se levantar.
Depois se dirigiu ao touro:
- Se levanta
meu toro, se levante meu toro. - e nada
também.
Aí o homem falou com desconsolado:
